casa de açúcar
ou aquilo que não sei te contar
hoje a chuva faz visita. e que visita caridosa…
chega como aquele pedido que fizemos há tempos e, depois, abandonamos na dormência da espera. e então, quando acontece — quando o ‘pedido líquido’, que outrora repousava profundamente, anuncia, enfim, a chegada, com o assovio do vento, e a fragrância da terra molhada, e a coreografia das árvores — algo em mim também desperta.
“(…) como ela, eu era silenciosa e tumultuada.
(…) a chuva era eu.”
(Filme: Little Amélie or the Character of Rain, 2025)
sem preocupar-me o bastante com a literatura científica ou qualquer diagnóstico clínico — que não limitam nem definem a vontade de viver e caber em algum canto — agora, apenas confesso, feito alguém sussurrando a si mesma: existe um certo ‘desequilíbrio químico’ no meu cérebro. algo que altera meu humor — flutuante — e arranca, sem piedade, toda energia do meu corpo. desde a infância, os sinais me engolem e me castigam.
durante esses episódios, quem reina é a angústia, que traz consigo o desânimo, a vergonha, a culpa. sempre a culpa.
não sobra brecha para coragem; não há motivos suficientes para existir fora da cama, ou para me nutrir com uma quantidade básica e saudável de refeições ao longo do dia, ou para continuar contemplando meus sonhos.
nesses momentos, não sou a melhor amiga, não sou a parceira ideal. minhas verdades emocionais passam a ser desconcertantes. porque não há conexão com nada em que meu coração acredita.
sondando o escuro das lembranças, tropeço em incontáveis projetos inacabados e escondidos em gavetas que me dedico a trancar.
nada faz sentido. nada sobra dentro do abraço que um dia, prometi — quando a depressão decide morar comigo uma vez mais.
torno-me um ser separado de sua ‘força vital’.
eu existo, apenas. eu existo, mas não há vida em mim.
(…)
contudo, também carrego um outro território. e esse, eu sinto, é parte minha em essência. quando ele expande e prevalece, nasce uma chama acesa em meu espírito. é possível, novamente, vibrar com a existência das pequenas coisas — essas, tão grandes…
então, posso lembrar: eu amo tanto tanta coisa…
amo as flores do campo; a delicadeza e melancolia dos pinheiros; o som de água corrente, me chamando de algum lugar;
minhas meias vermelhas;
as cenas dos filmes — e as trilhas sonoras;
velas;
mãos;
o riso desenfreado de uma criança a brincar;
me comove intimamente, a amabilidade presente nos gestos que alguém desconhecido pode oferecer; o cheiro de um recém-nascido; as teclas envelhecidas do piano; ilustrações de Beatrix Potter;
o aroma convidativo da manteiga e do alho refogado;
o calor do sol seguindo meus cílios;
folhas secas adornando o chão;
antiguidades, que ecoam nomes de um passado feliz;
jardins;
o soneto XVII de Pablo Neruda;
baleias;
a graça das conversas com um dente-de-leão;
joaninhas (imediatamente recordo que já fui cuidadora dessas criaturas… mas talvez essa história possa ser esclarecida em outra ocasião);
o outono laranja…
aprecio tudo aquilo que, embora estranho e imperfeito, arruma um jeito de pertencer
posso até ser triste,
mas minhas alegrias são tão intensas quanto qualquer aflição
elas vêm das miudezas
chegam numa xícara de café com leite e bolo quentinho, pela manhã,
ou no encontro com a lua, atravessando a janela do meu quarto, às 5h de um dia comum
vigio — em oração, calma, e a resistente esperança — o instante em que tocarei meu solo mágico, amando tanto as tantas coisas, de novo e de novo. quem sabe, o instante esteja me aguardando junto ao próximo amanhecer…? quem sabe, o instante já esteja aqui, a me salvar, surgindo discretamente no espaço entre meus dedos e o texto…?
rogo aos céus por isso.
tomara que se revelem, sem mais delonga
um quarto cheirando a giz de cera e aquarela
pincéis espalhados na mesa
a poesia que protege a parede desbotada: “Deixa-me sonhar”
um violão a ser tocado, ao meu lado, na cama posta
talvez algumas páginas em branco — esperando o traço calmante das palavras
e ainda, logo atrás da janela, um céu azul e aberto saudando meu olhar — poderei memorizar, finalmente, nosso reencontro
um dia macio e cor no mundo, outra vez
e assim, aos pouquinhos, voltarei para mim
(…)
acho que é bonito, mas está sempre de passagem, prevendo e anunciando a ruína a se aproximar.
reparo no contraste entre euforia e fragilidade — apesar das doses doces do entusiasmo, basta um sopro, e desmorono inteira.
surge um pensamento bobo e, lamento dizer, incompleto: acho que sou como uma casa feita de açúcar.


Sentimentos ♥️♥️♥️